Não me lembro bem de quem era antes de começar a escrever. Sentada numa mesa azul, no tempo em que existiam quadros a giz e o almoço era ovos com salsichas, “quando vamos aprender a escrever, professora?” é capaz de ter sido uma das perguntas mais excitantes que fiz até aos meus actuais vinte e um anos.

Assim, nasceu também o gosto pela leitura. Todos os anos repito que não lerei os livros novos da estante antes de terminar os outros que viajam, constantemente, entre Évora e Lisboa e que choram baixinho ao ouvir pela centésima vez “vou acabar este”. Parei Ensaio Sobre a Cegueira para começar Heidi. Entretanto, o Ensaio terminou e a menina espera ansiosamente pela primavera naquelas montanhas. Provavelmente, fui uma criança chata no jogo do stop por causa das leituras – desculpa, mana.

A melhor parte da adolescência foi ter encontrado pessoas que eram ainda mais chatas do que eu neste tipo de jogos. Isso e descobrir maravilhas pelo olho de uma câmara fotográfica, que, pesada ou não, me segue para todo o lado.

Gosto bastante de ver filmes, mas devo ter um (grave) problema de memória porque me esqueço da maioria dos seus finais, por mais arrebatadores que sejam. Não sei nomes manhosos de diretores nem vi muitos dos “clássicos”. Gosto de Hitchcock, mas também só vi quatro dos seus filmes. Adoro ouvir música, não faço playlists e oiço tudo sempre em shuffle – rebelde, eu.

Tive a sorte de encontrar a paixão da minha vida aos oito anos. Não foi o meu marido. Foi, na sua elegância e no seu esplendor, o ballet clássico – porque no que toca a outros tipos de dança, neste corpo de arvela (como me chama a minha mãe) parecerei sempre um idoso solitário demasiado bebido num casamento a dançar música pimba.

Embora seja a mais velha de duas irmãs, nunca ninguém acha isso. Não sei se é de ter menos cinco centímetros que a Eva ou gostar de usar vestidos floridos ou totalmente brancos, de ar angelical. Seja como for, quando perguntamos se somos parecidas é como estar no Preço Certo: às vezes temos semelhanças, outras somos bem diferentes e, em casos de eclipse ou equinócio, acham que somos gémeas. Deve depender da luz.

Posso dizer que sou uma pessoa desenrascada (herdei isso da minha mãe) e pacífica e que, quando peguei fogo a um caixote do lixo no dia do meu 20º aniversário, foi sem querer – e sem muita inteligência… Normalmente, estou de bom humor, a menos que esteja cansada, ou com sono ou com fome – juntem os três e têm a tríade que mata as férias em família.

Sei muitas coisas, mas ainda estou a tentar perceber o que quero fazer, realmente, no futuro – eventualmente, os meus pais deixarão de me pagar as contas da casa e o meu curso terá de ser posto à prova.

Até agora, aprendi a dar o máximo do meu metro e cinquenta e cinco aldrabado pela máquina no meu cartão de cidadão. Também aprendi a gostar dos outros como são, de salmão e da praia – não são assim tão maus, afinal de contas.

Aqui, vou tentar reunir e cruzar todas as coisas que mais gosto (não falei de muitas delas) com o humor (herdado do meu pai) a que habituei quem me rodeia. Pelo tom da escrita, saberão se estou numa pausa ou nas infindáveis aulas da universidade.

Se gostarem, continuem a aparecer por estes lados.

E chamo-me Joana, porque o meu pai é João.

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