Ele vinha cansado, bastante afogueado, na realidade. Subir a serra da Arrábida às duas da tarde numa bicicleta com uma espécie de atrelado e um boné na cabeça não é para todos – sobretudo se não tiver um daqueles pares de calções nada sensuais mas, aparentemente, milagrosos para pedalar umas boas horas. Entre os goles na garrafa de água, meio espremida por um Hulk sedento naqueles quilómetros, o rapaz italiano perguntava-nos quanto tempo levaria até chegar à outra ponta da serra.

As covas na panelinha de metal, que vinha a tilintar naquele amontado de tralhas, mostram que isto é a vida deste homem, pedalar mais ou menos rápido, por países estrangeiros, durante aqueles tempos em que sentimos uma urgência em saber quem somos fora de quatro paredes. Quem diria que uma bicicleta poderia ser a mala da Mary Poppins ou até mesmo uma casa.

Nem soube o nome dele, com certeza deverá tê-lo dito, mas eu estava tão espantada com este homem que nem me lembro. Quando lhe perguntei se podia tirar-lhe uma fotografia, sorriu com naturalidade e respondeu-me que sim – deve estar habituado a estes mirones que obedecem a regras e opiniões de vestuário, que criticam negativamente o seu estilo de vida, mas que, na verdade, o invejam ou admiram.

Assim que encostei o meu olho à ocular da câmara, percebi que este homem, aparecido naquela estrada antes de um piquenique entre searas e carraças, me mostrava o que eu queria fazer: escrever sobre estas pessoas e estes acontecimentos que me marcam por qualquer razão, mostrar o que é esta terra que pisamos todos os dias na esperança de que algo estranho nos agite o dia ou faça valer a pena ter, sequer, saído debaixo dos lençóis tão cedo para ver um céu que é sempre o mesmo.

Portanto, depois de muitas promessas, incontáveis ideias e “está quase”, posso, finalmente, dizer: é agora. Desta vez,  é a sério. Mais que um blog (nem sei bem que nome hei de dar a isto), esta é a minha tentativa de mostrar uma terra pelos meus olhos, pela minha lente e pela minha escrita, factual ou criativa.

Não vou escrever com uma eloquência estupidamente incompreensível nem embarcar numa tentativa embaraçosa de fingir saber o que não sei. Isto é o que é. Um sítio, sobretudo, para coisas normais.

Se pensava que estava presa numa rotina, são dias, pessoas ou lugares como estes que vou partilhar que me fazem dizer, claramente, que o ciclo monótono a que chamamos dia-a-dia é como o frio, psicológico, e que, mesmo sem férias “a sério”, qualquer dia é um bom dia para se fazer algo diferente – nem que seja cozinhar um almoço na serra, como ia fazer o italiano, naquele bico de camping que, garantidamente, se escondia na bicicleta.

Portanto, agradeço àquele rapaz que, corajosamente, atravessou a Serra naquela tarde em que eu só tive coragem para seguir de carro.


Joana

Anúncios